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As coisas alheias

AS COISAS ALHEIAS

                                                             Paulo Sergio Rosa Guedes

Tudo nos falta, isto é, o que nos falta é sempre infinitamente superior ao que temos e nos é extremamente difícil aceitar esta realidade. Não lemos um por cento dos livros que gostaríamos de ler, não somos bonitos e tranquilos como deveríamos, não temos a cultura e a inteligência de nossos amigos e nem conseguimos ganhar no fim do mês o valor em dinheiro que “de fato” vale o nosso trabalho. Olhamos para o lado e vemos vários cisnes enquanto nos sentimos o próprio patinho feio.

As coisas alheias representam então tudo aquilo que sentimos não ter, mesmo que tenhamos. Representam as nossas faltas, a nossa fragilidade, a nossa sensação de desvalia; e, o mais importante, nos conduzem à ilusão terrível de que as obtendo nos sentiremos aliviados; ao contrário, quanto mais as obtivermos maior a cobiça!

Em outras palavras, a cobiça das coisas alheias é, no fundo da alma, a não aceitação de nossa condição de seres integrantes da espécie humana, de nossa humanidade. Uma espécie de protesto mudo contra a nossa condição.

Nesses termos, surge então um dos sentidos dos dez mandamentos da lei mosaica, um dos quais proíbe o cobiçar as coisas alheias: proteger-nos da infame situaçăo de năo aceitarmos nossa condição, de termos de lutar internamente contra ela, uma luta “ab initio” destinada ao fracasso. E com um sério problema: assim como năo podemos nos tornar prisioneiros da cobiça também não podemos nos tornar prisioneiros do mandamento; é preciso poder pensar, temos de exercitar continuamente esta potencialidade fundamental que é o que nos diferencia dos outros animais; os mandamentos năo devem ser sentidos como meras instruções, ao contrário, constituem belíssimos ensinamentos de forte conteúdo poético.

Esta foi a postura, e por isso a escolhi, de Alberto Caeiro, na recomendação que, a propósito do mesmo tema, dirigiu a seu criador, Fernando Pessoa:

 

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios

 E navega nele ainda,

 Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,

 A memória das naus.       

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

 Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

 Para além do Tejo há a América

 E a fortuna daqueles que a encontram.

 Ninguém nunca pensou no que há para além

 Do rio da minha aldeia.

 O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

 Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 

 

 

 

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